Texto entrevista
Oi Marcus. Bom dia! Sou Vinicius. A Kátia Turra está fazendo a divulgação do espetáculo Happy Hour e vou te mandar algumas perguntas para o release.
* Quais são as principais diferenças entre uma ópera e uma ópera de câmara? É só a duração? Não. A duração é um efeito do conceito que guia uma ópera de câmara: quando menos é mais. Nos últimos anos, houve uma intensificação da composição de obras com elencos e conjuntos instrumentais reduzidos além de encenações mais econômicas. Com isso, há maior espaço para experimentações, exploração de possibilidades muitas vezes não presentes em obras de maior investimento em produção. E muitas dessas novas óperas de câmera vêm do contexto universitário, como exercícios de reflexão e criação de novos repertórios. Assim, com menos cantores, um instrumental reduzido e menor ostentação visual, podemos realizar sonoridades menos usuais, encenar espaços íntimos, afetos e situações que escapam daquilo que muitas vezes esperamos de eventos artísticos suntuosos. No meu caso, como venho lidando mais com música instrumental erudita nos últimos anos, tratei de simplificar as linhas melódicas vocais e incrementar o trabalho com a orquestração, criando sonoridades, jogos e imagens acústicas que não se vinculavam a um segundo plano frente ao canto. As mulheres ocupam o palco, mas da orquestra irrompem sons outros, inusitados, que se lançam em mil direções.
*Como se deu a escolha por falar da pandemia numa ópera?
Estava em Lisboa durante o início pandemia, em 2020. Era flagrante o descompasso entre o enfrentamento da Covid no Brasil e em Portugal. Quando a situação melhorou em Lisboa, em meados de 2020, voltei para o Brasil, e fui caindo em um inferno sem fim. Havia já combinado com a cantora Janette Dornellas o plano de um espetáculo centrado em mulheres maduras, profissionais, fora de seus papéis habituais de esposas, mães e filhas. Diante do caos na condução da pandemia no Brasil, parti para juntar as duas coisas: uma catarse pós-vacina e a forte presença de mulheres fortes durante a pandemia.
* O título Happy hour nos remete a um momento de descontração, mas o espetáculo é sobre um dos momentos mais tensos que vivemos na atualidade, a pandemia. Como isso se reflete no palco? O título é um chamariz, um gancho: lembra de algo que na normalidade pós pandemia se relacionava com os encontros entre as pessoas depois do trabalho. Esses encontros, com o distanciamento social, viraram memória de um tempo feliz. No pós pandemia, voltar a nos reunir era uma demonstração de apoio mútuo, de trocas de afetos, indignações. Happy hour é mais sobre essa vontade de estar juntos depois que houve tanta desgraça. É voltar das sombras. A peça é pra frente : vai da dor da pandemia para a superação. Mas sempre nos alerta para ficarmos vigilantes contra as consequências de equívocos que poderiam ser evitados.
* Entre as músicas, há ritmos que não esperamos encontrar numa ópera, como frevo, por exemplo. O que essa brasilidade significa para o espetáculo? A peça começa e é atravessada por sons dissonantes, por não resoluções, suspensões, gerando uma instabilidade, que se identifica a uma tentativa de representar o impacto da dor e desânimo diante da aflição generalizada. Aos poucos essa perplexidade sonora e emocional vai dando lugar a situações de maior vivacidade, esperança, alegria. Para tanto, foram utilizadas estilemas de danças brasileiras como frevo e maracatu. Dançar, cantar juntas torna as protagonistas da ópera mais fortes, mais unidas.
* Como você definiria as personagens do espetáculo? Qual personagem é vivida por que cantora? Temos três mulheres, três amigas que se conheceram em ensaios de corais, especialmente no Coro sinfônico da Universidade de Brasília. A que nos introduz no mundo da pandemia é a médica, cansada de um cotidiano de tentar vencer a morte que se alastra. Após, entram suas amigas: a empresária, que luta para manter seu comércio diante do fechamento de tantas lojas; e a surpreendente volta da professora, que vendo as notícias do caos sanitário no Brasil, resolve voltar. Elas se reencontram e cantam a esperança e a união.
* O elenco e a orquestra de Happy Hour são compostos apenas por mulheres. Isso foi uma ideia desde o início do projeto ou aconteceu? Todo o processo criativo partiu de diálogo e admiração com Janette Dornellas. Essa é nossa primeira parceria. Quando componho, seja música instrumental, textos dramatúrgicos, musicais, eu parto de conversas que para mim são aprendizagens, criação. Da ideia de ter em cena mulheres maduras e independentes uma coisa foi levando a outra. Dá muito, mas muito trabalho pensar em uma obra que envolve tantas artes e habilidades. É um trabalho de equipe, de todos os envolvidos. Tudo foi sendo costurado, negociado, redefinido durante as interações entre a composição, a direção musical, a produção, as cantatrizes, a iluminação, os músicos.
É isso. Fique à vontade para acrescentar algo que queira. Obrigado. Abraços.
Todo mundo teve suas perdas. No intervalo de poucos meses perdi meu pai e meu amigo e mestre Hugo Rodas. Um me deu a vida, outro me fez nascer várias e várias vezes no teatro. Hugo, já com câncer, pegou covid no início de 2022, o que acelerou sua partida. Os teatros fechados estão abrindo. Os artistas estão de volta. O público agradece. Agradeço aos recursos do FAC, a confiança por investir na produção de obras de autores locais. Essa é uma dramaturgia musical gerada em Brasília, com artistas de Brasília, tendo em cena imagens de lugares e memórias do DF. Obras dramático-musicais têm todo um apelo pois envolvem e empregam profissionais de diversas linguagens. Diante de um mundo plural, diversificado, nada mais próximo que uma obra plural, múltipla. Brasília tem tradição e gente qualificada para as fronteiras entre as linguagens.
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