Críticas

  Depois da apresentação fiquei disponível para comentários. Em primeiro lugar, havia um grupo de não gente não assídua ao teatro. Eles gostaram do espetáculo e se emocionaram. Ficaram surpreendidos com o tempo curto da experiência. E se referiram tanto ao conteúdo político e social da peça e da beleza do espetáculo. Um indico que percebeu com a peça se articula em três partes: da primeira mais escura e triste, indo para a mudança e festa final. Partes de um despertar. Outros ainda , que eram alunos de artes cênicas,  falaram que nunca tinha ido a um espetáculo de ópera, e viram como a interpretação é diferente, como o fato de cantores terem de constantamente se posicionarem quanto à fonte sonora e ao maestro, o que é um fator intrínseco da ópera, e um desfio para cantatrizes e para a encenação. 

Outro grupo, já da ópera, celebrou uma ópera composta em Brasília, com fluidez das cenas e orquestração rica. Ainda, como as vozes das cantatrizes se harmonizaram.

Um outro grupo, no dia seguinte, de pessoas mais ligadas ao teatro, questionou o fato de o tema da covid poder ter sido trabalhado de outra maneira que dentro de um arco narrativo linear. E que os conteúdos verbais poderiam ter mais poeticidade. 

Essa questão relevante ao mesmo tempo se refere a opções do espetáculo de agora também ecoa pressupostos de quem que as faz. No caso, a narrativa é simples, amplifica uma situação básica e recorrente de encontro de amigas. Na dramaturgia essa narrativa foi um gancho. Eu tinha opções de recair em uma linearidade narrativa, contar uma história, que poderia render um espetáculo maior na duração, seguindo protocolos do século XX, ou poderia explorar apenas sensações e ficar mais abstrato. Eu optei pelo meio termo, por me valer de uma narrativa, mas quebrar essa narrativa por justapor à cena sons e imagens que não se reduzem a duplicar um contexto imediato de cena.  Outra coisa: tenho usado esse recurso do gancho narrativo para ampliar o público alvo. As personagens não tem nomes e sim funções. Não me aprofundo na biografia delas, pois são figuras, imagens associadas a possibilidades e contextos atuais. Claro que há outras opções. Poderia ter me aprofundado em unir as figuras a histórias reais, etc. Mas eu enfatizei a orquestração, para uma experiência sonora rica. E simplifiquei as linhas melódicas e as figuras. Enfim, quis trazer para o teatro públicos diversos. E explorar questões de uma ópera de câmara.

 Nesse sentido, uma avaliação similar constatou que não há conflito na dramaturgia. Seria importante criar alguma dificuldade, um obstáculo para depois resolvê-la. Esse truque romanesco é interessante. Mas optei por não trabalhar com recursos de tramas narrativas. Fui para um entrameado sensorial, com nuvens de cores e outras tensões sonoras. Acho interessante quando indicam algo que faltou, pois é justamente, algumas vezes, isso que não queria seguir. 

Outra crítica desse mesmo grupo diz respeito a uso de materiais (avental e colheres de pau) que remetem a imagens e símbolos de rebaixamento da figura feminina. Os objetos estão no quadro de Bruegel. Usei Bruegel para invertê-lo, para parodiá-lo. No quadro ele equaciona o vínculo entre praga e mulher. Creio que precisaria na interpretação então enfatizar essa ironia. Que seria por brincar com esses objetos, ou colocá-los maiores, desfigurados.

Enfim, muita coisa a se pensar. 


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